18.2.12

A preto e branco

Acordo e está uma garrafa meia cheia
de bourbon em cima da mesa, uns fósforos,
um maço de Wiston onde alguém
esgaravatou o seu número de telefone; são já sete
e cinco da manhã, James Mason contempla-me
a preto e branco desde a televisão, e vocaliza
palavras que não logro entender nem ouvir sequer.

E depois de me levantar e de me decidir
a um banho, e deixar o asco e as entranhas
pelos canos, e tirá-lo da corrente, ocorre-me
que é agradável estar vivo e fazer a guerra
e o amor e este poema, e que o mundo
bem merece
outra oportunidade.

Roger Wolfe,
Días Perdidos en los Transportes Públicos
copiado daqui

13.2.12

De vita beata

En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y pouca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.

Jaime Gil de Biedma
Antología Poética (de Poemas póstumos)
Alianza editorial

9.2.12

Reis

está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro

Alexandre Sarrazola
Thaumatrope
Averno, 2007

4.2.12

26.1.12

Quatro Cigarros no Café des Anges

de resto
cai cedo a noite na
Rue de la Roquette
a um domingo

o leitor afastará o fumo
destes versos e atentará
apenas na morena
de gorro vermelho

junto à janela

Miguel-Manso
Contra a manhã burra
Mariposa Azual, 2009

23.1.12

O corpo no porta-bagagens

«[...] Deixar o cadáver na berma da auto-estrada significava submeter os que vinham atrás a uma surpresa pelo menos penosa; levá-lo para longe, deixá-lo em pleno campo, poderia provocar violenta reacção dos aldeões, que já na noite anterior tinham ameaçado e esmurrado um rapaz de outro grupo que procurava comida. O camponês do Ariane e o caixeiro-viajante do DKW tinham com que fechar hermeticamente o porta-bagagens do Caravelle. Ao começarem estes trabalhos, juntou-se-lhes a rapariga do Dauphine que se agarrou tremendo ao braço do engenheiro. O engenheiro explicou-lhe em voz baixa o que acontecera; levou-a para o seu automóvel. Taunus e os seus homens meteram o corpo no porta-bagagens, o caixeiro-viajante colou fita Scotch e até cola líquida, isto à luz da lanterna do soldado. Como a mulher do 203 sabia conduzir, Taunus resolveu que o marido tomaria conta do Caravelle, que estava à direita do 203; pela manhã a criança do 203 descobriu que o seu papá tinha outro carro, e brincou horas e horas passando de um para outro, trazendo parte dos seus brinquedos para o Caravelle.»

Júlio Cortazar
A Auto-Estrada do Sul de Todos os fogos o fogo
tradução de Carlos Barata
Editorial Estampa

21.1.12

Minorias

«Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista».

Changuito, aqui.

18.1.12

Combinações pessoais

«O poeta do presente encontra mais interesse nas combinações pessoais do que nas oposições canónicas das tradições herdadas.»

José Angel Cilleruelo
Prefácio de O Discurso Opcional Obrigatório, de Mariano Peyrou
Averno, 2009