16.11.09

Mal arde a brasa

Sobre a grelha
morre o peixe quando o vento
ao fundo o mar bravio enrola
e a noite invade esta cabana
de pescadores. Mágoas
também se queimam.

Chove, mal arde a brasa,
e mal se vê, quase já sem luz,
mas conhece estas quatro paredes
de madeira velha, este grelhador,
e pouco mais na solidão do catre
- duas mantas a um canto,
talvez - quando quase importa
a sobrevivência.
José S.

2.10.09

Never comes tomorrow

Never comes tomorrow, disse,
pálida e loira, com pouca certeza
e virou costas. A noite, ridícula,
de um riso triste, roubava ao fumo
o desespero de uma paixão juvenil.

Contra a noite escura, incerta,
até que ceda, só a carne suporta
o peso do vício.
José S.

13.8.09

Mais do mesmo

Estou a ler O Mito de Sísifo e se não me engano ainda tenho páginas e páginas de espanto pela frente. Graças a Camus.

12.8.09

Pequena consideração

Este blog continua com futuro incerto, como incerto continua o losango do mister Paulo Bento. Não produz frutos, por assim dizer.

28.7.09

Aviso à navegação

Até Dezembro, Janeiro, não sei bem, este blog deverá tornar-se completamente imprevisível. Tudo pode acontecer, preparem-se para o pior. E, mesmo que pareça, Albert Camus não tem qualquer culpa nisto. A culpa, como bem sabemos, é universal.

Fight fire with fire

Uma mulher cai à água, um raciocínio profundamente astuto e temos um ponto de partida para um exame de consciência que é uma travessia metódica pelo lado negro da condição humana. E não existe inocência. Só a culpa universal nos tornará iguais e nos redimirá desse mesmo lado negro, dessa infâmia que está presente no âmago de cada um.
Ora isto, senhoras e senhores, é irónico quando nos apercebemos que o idealismo volta a chocar com a liberdade individual.

19.7.09

Razões, efeitos e culpa

"Ah!, caro amigo, como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões."
*
"Eu compreendia melhor aquele amigo que se tinha proposto nunca mais fumar e que, à força de vontade, o conseguira. Certa manhã, abriu o jornal, leu que a primeira bomba H tinha explodido, informou-se acerca dos seus admiráveis efeitos e entrou sem demora numa tabacaria."
*
"De resto, nós não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos."
Albert Camus
A Queda

Sinceridade

"Sobretudo não acredite nos seus amigos quando lhe pedirem que seja sincero para com eles. Esperam apenas que os mantenha na boa ideia que fazem de si próprios, fornecendo-lhes uma certeza suplementar que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como é que a sinceridade poderá ser uma condição da amizade? O gosto da verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, por vezes um conforto ou um egoísmo. Se, pois, se encontra neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Corresponderá ao profundo desejo deles e provar-lhe-á duplamente a sua afeição."

Albert Camus
A Queda

Esterilidade

"Qualquer que fosse, aliás, a confusão aparente dos meus sentimentos, o resultado que eu obtinha era claro: mantinha todas as minhas afeições à minha volta para as utilizar quando quisesse. Não podia, pois, viver, confesso, senão com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a responder ao meu chamamento, fosse em que momento fosse, votados, enfim, à esterilidade, até ao dia em que me dignasse favorecê-los com a minha luz. Em suma, para eu viver feliz era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, de longe em longe, a meu bel-prazer."

Albert Camus
A Queda

7.7.09

Ad eternum

"Sei bem que não se pode passar sem dominar ou ser-se servido. Todo o homem tem necessidade de escravos como de ar puro. Mandar é respirar, não é desta opinião? E até os mais deserdados chegam a respirar. O último na escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é celibatário, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que outrem tenha o direito de responder. «Ao pai não se responde», conhece ,a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda a razão pode opor-se outra: nunca mais se acabava."

Albert Camus
A Queda