7.2.10

O inverso

Importam-se alguns hoje
mais com o livro, com um certo
contexto, do que com o poema,
mais com o poema, com um certo
tom coloquial, enfim, do que com
o próprio verso.

Eu, sei lá, não me demarco muito,
mas importa-me muito mais
a palavra.

José S.

A violência e o escárnio e a ironia

Agarrado ao materialismo de um livro.

29.1.10

Em última análise

Existe um tipo que tem um raciocínio semelhante ao meu, um tipo, contudo, capaz de algumas subtilezas que me escapam. Dá-se o seguinte caso: o tipo tem dinheiro a receber de um sujeito que vive a vários quilómetros, um sujeito, contudo, ocupado e que só dentro de dois dias tem tempo para pagar.

O tipo, então, diz-me: vou lá buscar o dinheiro. Eu poiso uma caneca e respondo que espero que o gasto em gasolina não exceda a quantia a receber. Quando pego novamente na caneca sou, muito naturalmente, um tipo vaidoso do meu raciocínio: um raciocínio que, apesar de não ser brilhante, é prático e analítico. Mas eis que o tipo admite a possibilidade do sujeito morrer entretanto, pelo que considera claramente que o risco deve ser evitado.

Ora este tipo que eu conheço não vai matar o outro. Não é um assassino, é só um tipo ainda mais analítico que eu.

27.1.10

O tempo

"Na realidade, aquilo que o tempo sempre nos traz é a perda; o ganho ou a compensação é quase sempre concebível, mas nunca certo."

T.S. Eliot
Notas para uma definição de cultura

19.1.10

Entre a espada e a parede

Andamos nisto aos tombos,
eu, pelo menos, nem sequer
sei o que quero disto tudo.

Da vida, da culpa, do vício
declarado onde a humanidade
muito naturalmente toda cabe
e mais este ofício maldito
de construção pessoal.

Andamos nisto aos tombos
entre a espera e a aparente
beleza firme das madrugadas.

E, se não nos mata a vida,
mata-nos o custo de um verso.

José S.

13.1.10

Ars Amatoria

Se queres amar não percas
tempo com versos.
José S.

4.1.10

Camus

16.11.09

Mal arde a brasa

Sobre a grelha
morre o peixe quando o vento
ao fundo o mar bravio enrola
e a noite invade esta cabana
de pescadores. Mágoas
também se queimam.

Chove, mal arde a brasa,
e mal se vê, quase já sem luz,
mas conhece estas quatro paredes
de madeira velha, este grelhador,
e pouco mais na solidão do catre
- duas mantas a um canto,
talvez - quando quase importa
a sobrevivência.
José S.

2.10.09

Never comes tomorrow

Never comes tomorrow, disse,
pálida e loira, com pouca certeza
e virou costas. A noite, ridícula,
de um riso triste, roubava ao fumo
o desespero de uma paixão juvenil.

Contra a noite escura, incerta,
até que ceda, só a carne suporta
o peso do vício.
José S.

13.8.09

Mais do mesmo

Estou a ler O Mito de Sísifo e se não me engano ainda tenho páginas e páginas de espanto pela frente. Graças a Camus.